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Os brasileiros não abandonaram a Copa do Mundo, mas passaram a tratá-la com mais distância. Pesquisas recentes mostram queda de interesse e menor confiança na Seleção, enquanto estudos acadêmicos indicam que a competição sempre dependeu de identidade coletiva, mídia e emoção compartilhada. Trump aparece apenas como fator periférico, não como causa principal do fenômeno.
O que os dados mostram
Os levantamentos recentes ajudam a separar impressão de evidência. A Folha, com base em Datafolha, registrou que 54% dos brasileiros disseram não ter interesse em acompanhar a Copa. A CNN Brasil, citando AtlasIntel, mostrou queda brusca na expectativa de título. Esse recuo não sugere fim do futebol, mas enfraquecimento do vínculo emocional que antes fazia o país parar quase inteiro diante do torneio.
Os números precisam ser lidos com cuidado. Eles descrevem um estado de espírito, não uma extinção do interesse. Em outras palavras, muita gente ainda assiste aos jogos, mas já não vê a Copa como uma festa automática e obrigatória. Isso combina com o comportamento atual do público, mais seletivo e mais espalhado entre várias telas, plataformas e formas de consumo esportivo.
Quando a Seleção não convence, a Copa perde parte do seu poder de unificação. O torneio continua grande, porém já não produz o mesmo magnetismo emocional de décadas anteriores. A sensação predominante hoje é de expectativa cautelosa, e não de euforia. Essa mudança abre espaço para outro fator importante: a nova estrutura de atenção do público brasileiro.
Por que isso mudou
A resposta mais consistente não está em um único nome da política internacional, mas na combinação entre Seleção, mídia e geração. A literatura acadêmica brasileira sobre futebol mostra que a Copa sempre funcionou como ritual de pertencimento nacional. Só que rituais precisam de confiança para sobreviver. Quando a equipe perde brilho, quando os símbolos deixam de unir e quando a experiência esportiva passa a disputar espaço com dezenas de distrações digitais, o interesse deixa de ser automático. É por isso que a queda atual é melhor entendida como desgaste acumulado do que como ruptura súbita.
O trauma de derrotas marcantes, como o 7 a 1, também pesa na memória coletiva. Ele ensinou parte do público a esperar menos e a duvidar mais. Ao mesmo tempo, a Seleção passou a ser percebida por muitos como um projeto instável, pouco carismático e distante do torcedor comum. Nesse cenário, o apoio não desaparece, mas se torna condicional: depende de desempenho, identificação e confiança.
- Seleção sem magnetismo: A equipe atual já não mobiliza o país com a mesma força simbólica de gerações passadas.
- Mídia fragmentada: Redes sociais, streaming e vídeos curtos dividiram a atenção que antes se concentrava na TV.
- Jovens e múltiplos hábitos: As novas gerações amam futebol, mas o dividem com games, creators, séries e outras telas.
A mudança de hábitos também pesa. Dados do IBGE indicam que quase toda a população já usa internet, principalmente pelo celular. Isso altera a forma de assistir esporte: a Copa continua relevante, mas já não monopoliza o tempo livre nem organiza sozinha a conversa pública. O futebol foi cercado por outros entretenimentos, e a seleção brasileira perdeu parte do antigo monopólio emocional.
Há ainda a dimensão política, mas ela deve ser situada com precisão. Donald Trump não explica o afastamento brasileiro da Copa. O que existe é um efeito indireto: o torneio ocorrer nos Estados Unidos recoloca temas como vistos, segurança e clima político no noticiário. Isso influencia o ambiente geral do evento, porém não altera a causa principal do desinteresse, que nasce no próprio Brasil e na relação enfraquecida entre torcida e Seleção.
“A Copa não sumiu do Brasil; ela perdeu a antiga condição de ritual obrigatório.”
— Jhonata
No balanço final, a melhor tese é a mais simples: os brasileiros não deixaram de gostar de Copa por causa de Trump, e sim porque a Seleção já não produz a mesma confiança, o consumo de mídia se fragmentou e a identidade coletiva ficou mais dispersa. O país continua capaz de parar diante de um jogo decisivo, mas já não se curva automaticamente ao torneio inteiro. Para jornalistas e pesquisadores, isso indica a necessidade de observar menos os ruídos da política externa e mais as transformações internas do esporte, da comunicação e da cultura nacional.